Diário de Bordo

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA

ENSINO DE CIÊNCIAS: CONTRIBUIÇÕES DA EPISTEMOLOGIA

DR. FREDERICO FIRMO DE SOUZA CRUZ

BEATRIZ PEREIRA E INDJARA PROBST

DIÁRIO DE BORDO – DIA 17/04

Durante a aula foram discutidos aspectos do capítulo quatro do livro do Steven French (2009), sobre “Justificação”. Nosso diário se configura a partir de questionamentos suscitados durante a aula e de perguntas que consideramos pertinentes. Caso vocês se lembrem de assuntos não abordados por nós, fiquem a vontade para nos ajudar a compor o diário.

O que é demarcação na ciência? Existe para todas as ciências? Utilizam os mesmos critérios? Durante a aula, discutimos a verificabilidade e a falseabilidade ser a demarcação da ciência. Os positivistas lógicos distinguem a ciência da não-ciência a partir da verificabilidade das hipóteses, eles enfatizam o conhecimento científico como a forma mais autêntica de conhecimento, obtida através do apoio positivo dado às teorias pelas observações e pelo emprego do método científico e da lógica (FRENCH, 2009). Ser verificável é a demarcação do que é conhecimento científico, a partir de critérios pré-determinados pela comunidade científica.

Para os que acreditavam no falseacionismo, a ciência não precisa ser verificável, ela precisa ser falseável. Isto porque várias teorias consideradas “não científicas” ou metafísicas, são verificáveis em todas as hipóteses. Na visão de French (2009), uma hipótese científica, para o falseacionismo, precisa ser capaz de ser falsificada, pois faz predições definidas que poderiam ser falsas.

É importante que o se delimite o objeto e as variáveis para que uma teoria seja verificável, uma vez que teorias vagas podem explicar tudo e não definir nada. Utilizar critérios para demarcar o conhecimento científico pode dar legitimidade a este conhecimento. Entretanto a delimitação pode ser tarefa difícil, busca-se uma definição de critérios que não sejam gerais para toda a ciência. Cada área terá suas características e demarcarmos de maneira genérica a ciência, como se só fosse conhecimento científico se fosse de uma ou duas formas, é o que pode dar o caráter positivista, empirista, indutivista, no sentido pejorativo das palavras.

O conhecimento científico precisa ser verificado ou precisa ser verificável? Falsificado ou falsificável? Para Carnap e para os outros positivistas lógicos um conhecimento é científico quando ele é passível de verificação. Ele precisa ser testável, haver ao menos uma possibilidade de ser verificado em princípio. Não precisa ter sido testado, mas precisa ser testável. Por exemplo, quando fazemos a afirmação: “Amanhã pode chover ou não”, esta afirmação é vaga, não pode ser verificável. Ela é verdadeira por si só, vai acontecer com certeza, ou vai chover ou não vai. Esta afirmação não é um conhecimento científico, pois não pode ser verificável. Já se a afirmação fosse: “Amanhã vai chover”, ela poderia ser testada. Há a possibilidade. No mesmo sentido, para o falseacionismo, o conhecimento científico precisa ser falseável e não necessariamente, falseado, embora possa ser. Mesmo o conhecimento que foi falseado, era científico, pois teve a possibilidade de ser falseável.

Quantas vezes precisamos testar para verificar uma teoria? French (2009) traz que, após um tempo, os positivistas lógicos chegaram à ideia de que ao observarmos um fenômeno, dentro da visão da verificabilidade, temos a verificação da teoria e da hipótese. Essa verificação leva a outra predição, que pode não ser observada, o que falsificaria a hipótese. Sendo assim, o mais correto a se dizer é que a hipótese nunca é completamente verificada. Ela é mais ou menos confirmada pelas evidências. Quanto mais evidências tivermos, mais a hipótese estará confirmada, isso porque para entender uma hipótese várias outras devem ser compreendidas. O teste experimental ocorre a partir de uma rede de hipóteses, que inclui a hipótese original e várias auxiliares relacionadas,que French (2009) afirma “enganchar” a teoria ou a hipótese nas evidências. Outra questão deve ser considerada: quantas vezes era preciso testar? Quanto mais, melhor? Infinitas vezes? É um problema que não foi resolvido e foi apontado pelos defensores da falseabilidade. Pois, para estes, para ser conhecimento científico é preciso ser falseável, apenas ter a possibilidade, sem ter a necessidade de testes graduais. Além disso, é difícil diferenciar o que é uma repetição de uma nova observação.

Então, as teorias científicas devem ser falseadas? Todas podem? Qual a relação com a metafísica? Para Karl Popper as teorias científicas não deveriam ser verificáveis, mas sim falseáveis. Popper demonstrou que havia teorias, como a de Freud e a de Adler, que podiam ser verificadas em diversas situações, ou seja, os fatos sempre podiam ser adaptados à teoria. Enquanto o conhecimento, que ele chamou de cientifico, poderia ser falseado em algum momento. Não que ele fosse ser falsificado, mas havia a possibilidade de ser falseado, o que não acontecia com a metafísica ou as “pseudociências”, como foram chamadas. Mas, será que todas as ciências podem ser falseadas? Será que a psicanálise não é científica? Há um envolvimento de áreas, entre a Psicologia, Biologia, entre outras, mas é difícil dizer que não há nada de científico. Científico pra quem? Quem define isto? Será que cada comunidade científica, mesmo tendo alguns aspectos gerais, não tem características próprias? E dizer que a ciência do outro não é científica para a minha ciência, não é o mesmo que dizer que não faço ciência sob o olhar do outro? Consegue-se ter uma demarcação científica tão geral?

Acima dessas indagações lembramos que as diferenças entre as ciências partem do fato de as perguntas serem diferentes em cada caso. Muitas vezes buscamos rotular um conhecimento como científico para lhe dar importância, entretanto não é necessário ser ciência para ser conhecimento válido.

FRENCH, Steven. Ciência: conceito-chave em filosofia. Porto Alegre, RS: ARTMED, 2009, 156 pp.